Masking feminino: quando ser “forte” demais também é um sinal de sofrimento
11 de março de 2026 por Simone Canola Sem categoria Comentários desativados em Masking feminino: quando ser “forte” demais também é um sinal de sofrimento
Na semana do Dia Internacional da Mulher, é fundamental ampliarmos o olhar para formas sutis e silenciosas de sofrimento psíquico que afetam especialmente meninas e mulheres. Um desses fenômenos é o masking — termo utilizado para descrever o esforço consciente ou inconsciente de esconder dificuldades emocionais, sociais ou cognitivas a fim de se adequar às expectativas do ambiente. É o ato de camuflar características pessoais para parecer “adequada”, “aceitável” ou “normal” socialmente. Pode envolver:
- Imitar comportamentos sociais observados em outras pessoas
- Ensaiar falas antes de interações
- Suprimir movimentos repetitivos ou impulsos
- Forçar contato visual
- Sorrir quando está sobrecarregada
- Esconder confusão, distração ou cansaço mental
Em muitos casos, a menina é vista como “educada”, “madura” ou “quietinha”, enquanto internamente experimenta ansiedade intensa, exaustão e sensação constante de inadequação.
Embora o masking possa ocorrer em qualquer pessoa, ele é particularmente frequente em meninas e mulheres, sobretudo naquelas com quadros como Transtorno do Espectro Autista (TEA), Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), altas habilidades/superdotação ou traços ansiosos importantes.
Por que o masking é mais comum em meninas?
Desde cedo, meninas costumam receber mensagens como:
- “Sente direito.”
- “Se comporte.”
- “Menina não grita.”
- “Precisa ser boazinha.”
Socialmente, espera-se maior habilidade comunicativa, sensibilidade emocional e capacidade de autorregulação. Quando há dificuldades nessas áreas — por exemplo, na cognição social, nas funções executivas ou na regulação emocional — muitas meninas aprendem a compensar, ao invés de serem compreendidas.
Isso explica por que tantos quadros de TEA e TDAH em meninas são diagnosticados tardiamente. O desempenho acadêmico pode estar preservado, mas à custa de enorme esforço psíquico.
Sinais de alerta
Alguns indícios de que o masking pode estar ocorrendo:
- Cansaço extremo após situações sociais
- Crises emocionais em casa após “dia perfeito” na escola
- Autocrítica intensa e perfeccionismo
- Sensação recorrente de ser “diferente”
- Ansiedade social significativa
- Dificuldade de manter amizades profundas, apesar de parecer sociável
Em adolescentes e mulheres adultas, o masking prolongado pode estar associado a quadros de ansiedade, depressão, síndrome de burnout e baixa autoestima.
Na prática clínica, é comum encontrar meninas com desempenho acadêmico adequado, mas com alto custo emocional. A avaliação neuropsicológica torna-se essencial para investigar e compreender o funcionamento individual e propor intervenções que promovam qualidade de vida.
Neste Dia da Mulher, que possamos olhar com mais delicadeza para aquelas que aprenderam a sorrir enquanto se sentiam exaustas por dentro.